Afetos Improváveis (Know that I love you)

 21/03/2022


Afetos Improváveis (Know that I love you)


Ninguém sabe que uma história será grande até depois de ela ter acontecido.  No seu gérmen residem apenas pequenas decisões e atitudes tomadas à revelia do fato de que no futuro elas merecerão ser contadas.

Naquele verão estávamos às voltas com os preparativos do casamento de uma amiga com um estrangeiro. Tinham se conhecido há alguns meses e ela partiria com ele, depois da cerimônia, para o exterior onde ele mantinha residência. Misturados ao entusiasmo dos preparativos do enlace estavam a ansiedade da vida desconhecida que ela pretendia assumir e o apego às vidas pessoal e profissional construídas da qual ela deveria então se despedir.

Da parte de minha antiga amizade eu oferecia compreensão, incentivo e apoio, qualquer que fosse a natureza da necessidade verificada. Foi assim que ela me pediu para fazer companhia para o tio do noivo, que viria para o casamento e não falava português.

Assim foi que naquela semana passamos os dias inteiros juntos. Quando não estávamos reunidos com os outros familiares, preparando enfeites e lembrancinhas, estávamos passeando pela cidade ou descansando dos dias mornos e agitados de então. Eu lhe mostrava a cidade e ele me retribuía com pequenos ensinamentos sobre a sua própria língua. Ganhávamos em vocabulário e intimidade.

Numa destas paradas, no Alto da Sé em Olinda, tivemos nossa primeira conversa de cunho pessoal. Eu soube que ele era um pastor religioso aposentado e divorciado. Segundo ele, tinha sido impossível manter o casamento com a ex-esposa, que tinha problemas com alcoolismo. A minha perplexidade nos induziu a inúmeras outras conversas, cada vez mais pessoais, já que eu própria enfrentava uma situação de codependência familiar.

Com o passar dos dias, os assuntos das nossas conversas passaram a variar entre felicidade, paz, amizade e amor. Confiante no seu discernimento de uma vida de experiências e segura do sigilo das minhas confissões, já que não falava o nosso idioma, compartilhei com ele minhas pequenas histórias de infortúnios amorosos, desencontros e dúvidas sentimentais.

Na véspera da sua partida, convidou-me para um jantar de despedida, no qual daria um veredito sobre o rumo que ele achava que eu deveria dar para a minha incipiente vida amorosa de vinte e poucos anos. Fiquei perplexa quando me disse que “se tivesse um terço da idade que tinha, diria que o homem certo para minha vida era ele”. Atônita, não soube o que dizer e ele me tranquilizou de que não era necessária uma resposta. Na penumbra do restaurante onde estávamos, bruxeleavam não só as sombras das velas, mas também meus espantos. Foi quando soube, pela primeira vez, o poder das palavras e das confidências. 

No dia seguinte, na despedida do aeroporto, ele me sussurrou um exemplo do uso da expressão idiomática que ele havia me ensinado: "Loving you this week was worth it (Te amar durante essa semana valeu a pena)."

Com a partida dele inauguramos uma troca de correspondências que, eu ainda não sabia, duraria muitos anos. Nas suas cartas me contava da sua vida, perguntava da minha e mandava sempre alguma citação de frases inspiradoras. Todas as cartas terminavam invariavelmente com "Know that I love you (Saiba que eu te amo).

De alguma forma aquelas reiteradas afirmações de afeto me ajudavam a reconstruir a auto-estima bombardeada com as inseguranças próprias da juventude. Independentemente dos meus erros e desilusões, convencia-me de que se uma pessoa incrível como aquele homem bem mais velho me amou, eu devia ter algum valor e que eu haveria de algum modo conseguir tornar minhas qualidades mais visíveis.

Soube pelas suas cartas que ele tinha reencontrado uma pessoa que já conhecia há algum tempo e que esta aproximação tinha se transformado num relacionamento. Falava da sua felicidade em encontrar o amor novamente.

O casamento da minha amiga se desfez depois de um tempo e, por algumas variadas circunstâncias, viemos a nos encontrar em outra cidade e compartilhar um apartamento. Nestas condições, ele veio ao Brasil novamente e foi nos visitar.

Nesta segunda visita a nossa cumplicidade ainda estava lá. Hospedado em nossa pequena casa, eu o levava às minhas rotinas de trabalho e tínhamos os dias inteiros para conversar e nos atualizar sobre o outro. Desta vez ele já sabia um pouco da minha língua e nossas trocas de vocabulário eram recíprocas.

Antes de partir, entregou-me uma carta. Pediu que eu ainda não a abrisse, pois me diria de viva voz o que nela continha. Disse-me que, ao deixar o Brasil na sua primeira visita, procurou um curso de português, pois seu intuito era poder voltar e me pedir em casamento. Atônita novamente, não soube o que dizer.

Ele contou que o sentimento surgido na sua primeira vinda abriu o seu coração para que encontrasse sua atual companheira. Disse que a amava e estava feliz. Mas que esse novo amor não tinha apagado o primeiro e que entendia então que podia amar duas pessoas. Quis que eu soubesse disso. Passamos um tempo silentes recostados naquele sofá, conscientes da preciosidade do sentimento que nos unia, apesar de não ser realizável física ou temporalmente.

Mais alguns anos se passaram com a nossa correspondência mensal contínua até que eu vim a ter um problema sério de saúde. Tive que ir me restabelecer na casa da minha mãe, onde passei cerca de três meses. Nessa época, ele passou a me escrever diariamente e as cartas eram enviadas para a casa da minha mãe. Ele só voltou a espaçar a correspondência quando eu já estava melhor e de volta à minha casa. Suas cartas naquele período eram para mim uma certeza e ajudaram tanto quanto à infinidade de terapias que eu utilizei na minha recuperação.

Eu me casei e vim a ser mãe. Minhas cartas para ele passaram a ir recheadas de novidades de maternidade e uma maturidade que chegava aos poucos. Ele me contava da sua vida, suas mudanças e dos efeitos da velhice que se faziam cada vez mais presentes.

Numa ocasião ele me contou de uma viagem que faria com sua companheira para a Europa num período em que eu estaria num local próximo. Sugeri de nos entrarmos lá, situação em que poderíamos ser apresentadas. Recebi uma resposta negativa e tive a impressão de que a dificuldade não teria partido dele. Busquei compreender que a nossa amizade talvez não fosse confortável para ela.

Mais alguns anos se passaram. A perda de visão dele não o permitia escrever como antes. Ele passou a escrever relatos genéricos datilografados, que mandava para toda a família dele. Incluiu-me dentre os destinatários e de pessoal, pequenas notas em letras trêmulas com a assinatura no final. O “Know that I love you” veio enquanto ele ainda rabiscava o final das cartas e as colocava no correio. Depois as cartas dele vinham de forma impessoal, mas não falharam em chegar.

Certo momento, uma outra amiga me convidou para uma viagem internacional. Negociei com ela que poderíamos incluir no roteiro uma visita à pequena cidade onde meu amigo morava. Informei à companheira dele, que se ofereceu para nos hospedar numa casa de hóspedes vizinha.

 Nesta época eu estava com cerca de trinta e cinco anos e fui recebida por uma mulher de sessenta, professora universitária, culta e admirável. Foi simpática e gentil com moderação. Nos dias em que estive lá, fazíamos as refeições com eles e passava algum tempo fazendo companhia a ele ou o ajudando em pequenas caminhadas que ele fazia para se reabilitar de uma queda que havia sofrido. Ele tinha quase oitenta anos e percebi que se envergonhava das próprias limitações.

Foram dias bons. Quando me despedi dela, ela disse finalmente ter entendido por que ele gostava tanto de mim. Um abraço selou um pacto de amizade e respeito entre nós. A partir daí foi ela que passou a enviar as cartas que ele ainda conseguia escrever com a sua ajuda.

No ano seguinte fui surpreendida com o recebimento de um email por parte do ex-marido da minha amiga. Tive um pressentimento antes mesmo de lê-lo. Nele comunicava o falecimento do seu tio. Impactada, agradeci a consideração em me avisar.

A perda e o vazio das palavras foi me atingindo aos poucos. Eu tinha todas as cartas recebidas dele por mais de duas décadas guardadas em uma caixa. Quando eu fui capaz, abri e li uma por uma. Recortei frases de diversas delas e fiz uma colagem numa tela em branco. Aquele mosaico da caligrafia conhecida ainda ficou comigo numa casa de campo que eu tive. Até que um dia, numa noite de lua, acendi uma fogueira e queimei tudo. Não precisava mais delas. Já estava tudo dentro de mim.

Depois da morte dele, passei a receber as cartas que ela enviava para família dela. Surpresa, percebi que assumir o velho hábito dele era uma forma dela mantê-lo ainda um pouco consigo. Me senti honrada em ser incluída dentre os destinatários e retribuí a correspondência contando coisas sobre mim mesma e mantendo o contato da forma como foi possível.

Por essa troca soube, por alguns anos, que ela teve ainda um outro relacionamento que a fez feliz, soube das suas filhas e das suas realizações profissionais. Por fim, recebi dela a última carta na qual contava do seu câncer, fazia um apanhado da vida e terminava, com a sua elegância usual, um último gesto de gentileza. Ela própria contava da sua morte e encerrava suas correspondências. Imagino que não queria deixar a descortesia da falta de notícias.

Já faz algum tempo que eu não recebo mais cartas, mas ainda não tinha condições de falar sobre isso. Ainda não tinha ânimo de compartilhar esta história. Ainda não tinha clareza para reconhecer cada envelope como um tijolo da minha própria essência. Ainda não tinha coragem de colocar esse ponto final.

Assim como naquele dia eu acendi a fogueira e levantei a fumaça das palavras dele, hoje eu espalho as cinzas das lembranças dela. Sei que tive um grande valor para ele, mas a troca foi recíproca. Agora eu vejo como o exemplo dessa mulher forte, independente e linda foi o último presente que ele me deu.

Sei que não nascemos prontos e que nos construímos através das nossas relações familiares, amorosas ou de amizades. Hoje tenho mais de cinquenta anos e minha idade está mais próxima da que ele tinha quando nos conhecemos do que da minha. Não tenho mais muitas ilusões. Só o desejo de vir a tocar uma alma da forma como eu fui tocada. 


Comentários