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Mostrando postagens de maio, 2021

O Lagarto e o Grilo - Parte I

Tenho pensado que existem tipos diferentes de pessoas e de dinâmicas internas. Claro que cada pessoa é um universo particular,  mas me parece que, genericamente consideradas as pessoas, deve haver as que prestam pra felicidade e as que prestam pra tristeza.  Esse meu pensamento vem de uma frase do Manoel de Barros,  que disse que "o grilo é um bicho imprestável para o silêncio" (😊). Estou certa de que uma pessoa de um tipo jamais convencerá intelectualmente a do outro tipo do seu ponto de vista. A questão que me instiga é: haveria possibilidade de relacionamentos próximos gratificantes entre pessoas de tipos diferentes?  Tomando o exemplo do grilo, seria possível que ele se entenda com o lagarto? Dessa ideia surgiu o ímpeto de escrever um conto acerca de pessoas com funcionamentos díspares que desejassem se relacionar. Com o tempo o ímpeto diminuiu, talvez pelo desalento de não vislumbrar o desfecho que eu desejava.  A narrativa ainda flutua, à espera da sedime...

Black

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Esse é o Black. Ele já é um senhor,  tem catarata e está enxergando pouco.  Eu não curto contato próximo com cachorros, mas temos nos aproximado nas minhas últimas estadas aqui.   Começou certa feita,  quando tivermos que dormir,  eu e os meninos,  sozinhos num quarto externo e ele nos protegeu a noite toda.  Dormiu em frente a nossa porta e descobrimos um gambá morto por ele nas imediações na manhã seguinte.  Sinto ternura em seu olhar e uma espécie de resiliência em me seguir pela chácara,  como se eu integrasse o grupo dos que lhe dão carinho.  Perguntei-me porque me acomodo melhor aos cães antigos,  que já perderam a estridência da juventude. Talvez porque ambos já aceitamos a maneira das coisas,  o ritmo da vida e a inevitabilidade do afeto.

Eu e você

 06/02/2021 Eu e você   "Nós" existimos em algum lugar O plano interrompido O desejo malogrado Passou algures a funcionar   À minha e tua revelia Talvez noutra dimensão Sem que percebamos Acontece a nossa alegria   Vislumbrei essa outra versão Estive lá noutro dia Sem autorização ou pedido O desenrolar da emoção   Todas as intenções   esvaziadas Tudo   o que não permitimos Neles naturalmente fluem Nossas vidas transformadas   Abandonemos a melancolia Agora,   impossível esquecer Já fizemos por merecer Superar essa anomalia   "Nós" podemos agora Seguros dos sentimentos Senhores das nossas histórias Resgatarmos sonhos de outrora

Ano Novo 2020-2021

30/12/2020 Desejo a vocês um respiro e um suspiro.   Que tenhamos força pra continuar,   calma pra pausar e resiliência pra perseverar. Que possamos inspirar saúde, paz e tranquilidade e expirar angústia, ansiedade e medo. Que respiremos muito e longamente e transpiremos o que há de melhor em nós .

Ausência

 08/12/2020 Por vezes tenho nostalgia de ser eu mesma.   Não me reconheço quando me sinto assim.   Uma farsa? Um estratagema? Um holograma vazio? Não percebo ainda o que me falta quando me ausento. Só sei que há uma mola (talvez muito esticada) que me traz de volta.

Voo

 31/10/2020 Voa! Escreve no vazio com a trajetória das suas asas! Fala do que ainda vem,   antes que o hoje pouse e vire ontem.

Fim de semana

 18/10/2020 Fim de semana Conhecer um canto novo da cidade,   encontrar amigo depois de algum tempo,   tomar chopp depois da caminhada,   tentar receita nova,   dar errado consertar e tentar comer assim mesmo, tomar o restinho do vinho da geladeira,    curtir preguiça na cama arrumada, regressar ao livro que estava lendo e lembrar como ele é bom.   Sem identidade,   sem agenda,   sem compromisso.   Amanhã chega outra semana e começa a contagem regressiva pro próximo final de semana.

Forasteiro

 08/10/2020 Forasteiro As curvas suaves das montanhas do Sul de Minas foram sendo substituídas   por retas maiores e objetivas. O desembaraço das estradas pareceu refletir os efeitos do distanciamento aumentado da casa e da família deixados pra trás. Todo forasteiro sabe que tornar à casa traz alegria e conflito. Voltando a partir, ao lado da   saudade prenunciada, o forasteiro leva um desígnio aliviado. Seu lugar é o mundo e distância seu modo de vida.

Jasmim Noturno

 05/10/2020 Jasmim Noturno Brisa morna de primavera Brancura no verde da noite Aroma doce inebriante Machuca o amante feito açoite

Alazão

 30/09/2020 Qual alazão desenfreado, o espírito Emoções, paixões e sentimentos em conflito Desordem fragilmente administrada Paz e tranquilidade arduamente conquistada Ventos de outubro e mares   enluarados Tranquilidade de invernos passados Levada por   ansiadas primaveras   Projetos então cultivados, inalcançáveis Aguardam o descanso do alazão

Homenagem

20/08/2020 Homenagem   Sorriso no rosto ao olhar sobre os ombros Pálpebras estreitas no sótão de histórias Anos envoltos na seda da lembrança Esforços muitos e vitórias batalhadas Labor conjunto na edificação do sonho

Bicho arisco

 21/07/2020 Não sei da vida se os desejos secretos sobrevivem à luz do dia. Desconfio, entretanto, que indiscrições sentimentais íntimas, se permitidas, contagiam os sentidos.   É preciso muito rigor para abafar um desejo. A boca pode calar, mas o olhar transborda. Fechados os olhos, a respiração titubeia. Preso o fôlego, a pele arrepia. Desejo é bicho arisco e selvagem. Pra escapar das suas garras só mesmo ignorando a sua existência ou fugindo das suas artimanhas. Caso contrário, melhor entregar-se em sacrifício e conhecer o esplendor na relva.

Flor do Amor

 18/07/2020 Flor do Amor flor de delicadeza transpiração de pétala suspiro leve queda de pena brisa vespertina céu de lua nova seda fina na pele amor em botão   tempo escorrido flor madura pétala encadernada gemido rouco sal na pele vento noturno lua cheia lençol de percal amor de perdão

Meio do Caminho

 01/07/2020 Meio do Caminho   Céu negro e estrelas salpicadas num sereno de noite fria. Sensação da infância e do sempre, apesar da partida longínqua. Reconhecimento da gênese e sensação de bagagem demasiada. Meio século de caminho e pouco farol na estrada. Trilha aberta no braço, mesmo sem sabença ou facão. Flores trançadas no cabelo e arranhões pelo corpo. Memória de luas em rodopio e arrepios de pele em lembrança. Rugas nos olhos de visão pouca e cheiro de orvalho ainda por cair. Peito sanfoneado de vazios surdos e cheias de marés. Igarapés de silêncio e pororocas de sinfonias. Mata virgem de desejo pelo caminho pisado da vivença. Nos coldres Margarida desvalida e botão de Camélia. Na cabeça sonho a brilhar, no cantil teu amor a pingar.

Não ditos

 16/06/2020 Serena é a bruma que envolve os não ditos. Os embriões de palavras flutuam em espirais aleatórias. Diz a lenda que eventualmente se unem e aumentam. Num ponto de tão grandes se transformam em energia. Agora sem dono nem controle procuram o destino. A vontade malograda de dizer frustra o desejo alheio de ouvir. O não dito se faz conhecer por meio outro que se possa sentir.

Pensamento aleatório - Feiúra

 09/06/2020 A feiúra, eu acho, ao contrário da beleza, vem de assalto. Depende de determinada abertura do diafragma das nossas pupilas. Mas quando capturada, a feiúra em certos momentos nos enternece e o sentimento faz com que se transmute em beleza.

Forma da Alma

 04/06/2020 Que forma tem a alma? Gosto de pensar que a alma é multiforme, se transfigura conforme o sentimento que predomina.  Tantos vértices quanto maior o desengano. Arestas sempre polidas pela harmonia e tranquilidade.  A dor diminui os ângulos, limitam vias de contorno.  É lá no fundo, no aperto do fim, que fica o canto, a casa do desencanto.

Poesia em demasia

 07/05/2020 A poesia desse escrito vem em prosa. Trata da miséria usando a linguagem como se fosse os insumos do artista. Veio-me a imagem do ourives, lapidando com palavras   a aridez da inconvicta existência. Esse livro miúdo*, de páginas pequeninas, contém  poesia perigosa, daquelas que vem disfarçadas nas tristezas e que, se aspiradas em demasia, desnorteiam a alma. Por isso, raciono poucas páginas por dia, pra evitar que a beleza destas palavras escolhidas com tanto esmero abram um rombo no peito ressequido pelos áridos tempos de agora. Beleza e poesia em demasia podem gerar danos irreparáveis na condição de preparação pra vida. Este escrito deveria vir com a advertência de que deve ser absorvido com moderação. *Impressões sobre o livro Terra Sonâmbula do Mia Couto.

(Re)Conhecimento

 03/05/2020 (Re)Conhecimento   Se eu pudesse me apresentar novamente, diria que talvez seja um prazer conhecer você. Afora as lembranças guardadas - algumas verdadeiras, outras criadas -, não restam pontas às quais possamos alcançar e   não sobraram vidraças que nos sirvam de espelho um no outro. As águas passadas erodiram as feições reconhecíveis do espírito e, no entanto, remanesce um brilho de cristal, reflexo do sol cegando os olhos que atraem e impedem o simples giro do corpo.   Se eu pudesse, diria que talvez devêssemos nos apresentar novamente. O que ficou é muito menor do que o que foi acrescentado à receita do que nos fez hoje. Tantos luares alteraram a cor e tanta brisa remodelou a massa da nossa essência e(in)voluída. O caleidoscópio da vivência própria confunde tanto a visão quanto a sensação do outro.   Se eu pudesse, gostaria de conhecer você novamente, sem arrastar percepções passadas e conclusões esperadas. Os pêlos do seu peito em ...

Arrependimentos

 17/04/2020 *Tenho brincado com palavras.  Na intenção de um poema,  cada dia lembro de uma passagem da minha vida,  um arrependimento, e vou jogando com as ideias. Algumas vezes lapido a forma,  outras só aprimoro a síntese. Do que são feitos os arrependimentos   São feitos de mínimos instantes O olhar desavisado da intenção O silêncio intolerável na angústia   São feitos da ignorância A indiferença das razões alheias As inseguranças inconfessadas   São feitos   do   discurso partido O intervalo da mensagem O equívoco na interpretação   São feitos de palavras invertidas As noites mal dormidas As manhãs esquecidas   São feitos do rigor da verdade O despreparo da idade O temor da espontaneidade

Ano Novo 2019-2020

 19/12/2019 Chega o final do ano e me pego vazia de palavras.   Pensei em não mandar uma mensagem este ano,   mas aconteceram duas coisas que me fizeram prenhe de um sentimento que quis compartilhar.   Ontem fomos ao Nature Museum of Canada e   visitamos um borboletário, onde havia casulos,   crisálidas e borboletas em todas as fases de vida.   A orientação aos visitantes era de NÃO   tocar ou interferir em nada, embora pudéssemos deixar que elas pousassem em nós.   Ficamos apenas admirando um sem número de indescritíveis belezas.   Hoje eu recebi uma mensagem de uma pessoa querida que dizia que, dez anos depois   de eu presenteá-lo com um livro,   ele o havia encontrado perdido   em casa e amado.   Na escassez de palavras deste inverno profundo em que me encontro,   quis compartilhar a percepção de que nossas atitudes devem permanecer amorosas sempre . O tempo do desabrochar das sementes aspergidas não...

Nutrição

 02/12/2019 Nutrição Desde sempre nutrí-me da sua companhia. Não sei se da contemplação da sua   presença Ou da sensação da sua atenção. Nas ocasiões de desarmonia, Nutrí-me até mesmo da raiva tua. Dos arroubos das pazes, banqueteei-me. Tanto tempo distante de ti, Tenho fome do meu próprio desejo.

F(l)ores

  19/10/2019 Identificas com flores O que de   dentro floresce F(l)ores sempre assim, O que arrancarás   de mim?

Economiciamando

  13/05/2019 Economici amando Amar... mesmo quando desnecessário ou perigoso,   só porque se pode ou se é bom nisso Amar... quanto mais quando é fácil e natural,    já que não custa nada e faz bem Amar... mesmo quando é indigesto ou dá preguiça,   porque é muito mais trabalhoso não amar

Ano Novo 2018-2019

  20/12/2018 A passagem de 2018 para 2019 tem me trazido   fortes impressões de mudança,   de final de etapas,   de substituição de paradigmas, de inauguração. Essas impressões provocaram em mim um movimento de retorno às origens que,   ao contrário de ser uma reação à renovação, é a busca do essencial para alicerçar o que está por vir. Estar na minha terra,   com os meus,   mas minhas circunstâncias, permitiu-me lembrar do que eu era e eventualmente foi se perdendo pelo caminho e vale a pena ser resgatado. Lembro-me que costumava escrever mensagens aos amigos no final de ano. Esse texto é para renovar esse sentimento e dizer que,   neste momento de renovação tão intenso,   a sua amizade é um dos valores que são perenes para mim e, com ou sem mensagens,   contam como suporte para qualquer mudança de vida que venha a ser necessária. Feliz Natal e que o ano novo nos traga muitas alegrias e oportunidades de convívio e troca. Beiji...

Caleidoscópio

  16/09/2018 Caleidoscópio Te amando devo estar aberta A cada nuance uma descoberta Todas as suas faces me encantam Algumas me divertem Outras me instigam Mas tem uma, ah essa uma, a quem me entrego

Pensamento aleatório - Redenção

18/06/2018 Estava passeando pelas melodias e pensando... no trajeto até a praia da redenção às vezes é preciso mergulhar fundo no mar da dor.