O Lagarto e o Grilo - Parte I
Tenho pensado que existem tipos diferentes de pessoas e de dinâmicas internas. Claro que cada pessoa é um universo particular, mas me parece que, genericamente consideradas as pessoas, deve haver as que prestam pra felicidade e as que prestam pra tristeza.
Esse meu pensamento vem de uma frase do Manoel de Barros, que disse que "o grilo é um bicho imprestável para o silêncio" (😊).
Estou certa de que uma pessoa de um tipo jamais convencerá intelectualmente a do outro tipo do seu ponto de vista. A questão que me instiga é: haveria possibilidade de relacionamentos próximos gratificantes entre pessoas de tipos diferentes?
Tomando o exemplo do grilo, seria possível que ele se entenda com o lagarto?
Dessa ideia surgiu o ímpeto de escrever um conto acerca de pessoas com funcionamentos díspares que desejassem se relacionar. Com o tempo o ímpeto diminuiu, talvez pelo desalento de não vislumbrar o desfecho que eu desejava.
A narrativa ainda flutua, à espera da sedimentação das ideias, percepções e sentimentos. Tenho carinho, no entanto, pelo que dela até então se revelou.
O GRILO E O LAGARTO
1. Ela olhava a sua foto de dois anos passados como a um
espelho. Impressionou-se em ver quantas
linhas e nuances se fizeram moldar em tão pouco tempo. "Devem estar sendo mesmo brutais estes
últimos dias, ou será apenas o inferno astral do cinquentenário”, pensou.
Enquanto o balanço do trem mudava de um pêndulo longo para um frenesi de freada, pareceu-lhe estar parando o relógio da parede da espera. Era chegado o momento aguardado. As silhuetas dos prédios se agigantavam nas pupilas, enquanto a respiração ia se tornando discretamente curta com a ansiedade. Voltar ao local que havia sido tão importante para ela parecia uma chance de compreender e reescrever certas memórias. Alguns fatos são grandes demais para serem assimilados quando acontecem.
A chegada ao apartamento encontrado num sítio de aluguéis temporários pareceu um carregamento de impressões familiares. A luz e a temperatura daquela altura do ano, o som típico dos automóveis em meio aos coletivos elétricos, os tons dos mercados nos bairros e as roupas penduradas à frente dos prédios preencheram cada qual a seu modo os tons do quadro da sua memória esmaecida.
A novidade ficava por conta da sua adquirida capacidade financeira. O percurso antes feito a pé, arrastando a mala de rodinhas, agora podia ser percorrido no conforto de um táxi. O luxo fez com que chegasse ao destino antes de absorvidas todas estas impressões e foi com certa confusão que tocou a campainha da sua nova residência.
2. O apito da chaleira fez-se ouvir com a precisão esperada. O tempo suficiente da escolha do aroma do dia
e a organização da caixa de chás de volta na gaveta. A persiana atrás da poltrona já havia sido
fechada e o livro da semana já estava na mesa lateral quando ele se sentou e
acendeu a luminária. O prazer da ordem
das coisas era maior do que o da leitura ou o da bebida. A rotina envolvida nos
afazeres da tarde servia como um cobertor acolhedor e tranquilizante.
No momento em que abria o livro na página marcada o aroma de rosas e gengibre o atingiu. Mais alguns instantes e o primeiro gole quente o envolveria por dentro, afastando a tensão gélida daqueles dias outonais. O sol não teve força para diluir a neblina até o final da manhã e diminuiu o calor que aquelas paredes deveriam ter recebido ao longo do dia.
As bordas da xícara estavam especialmente tépidas e o contato nos lábios
ainda recalcitrantes quando a estridência da campainha o assustou, vertendo
parte da bebida na roupa.
Já havia algum tempo que toda a vizinhança conhecia sua evidente aversão a conversas. A comunicação restringia-se ao estritamente necessário. Diálogos vazios o aborreciam e questões cotidianas não despertavam seu o interesse. Não lhe ocorria nenhuma razão para que pudesse estar sendo incomodado.
3. Antes que alguém lhe respondesse ao interfone, um
morador do prédio abriu-lhe caminho e ela subiu os dois lances de escada até a
porta que lhe havia sido indicada.
Esperava por alguém depois de algumas breves batidas e não estava
preparada para a porta oposta se abrir. Um rosto zangado a interpelou
questionando a razão de ter tocado a campainha.
Atônita, ia explicar que talvez tivesse havido um engano, pois se dirigia ao outro apartamento, quando foram interrompidos pela zeladora, que se identificou como a portadora das chaves e desculpou-se com o vizinho consternado.
Dentre as diversas instruções da locação, conselhos de convivência foram incluídos, mas ao se ver sozinha novamente só conseguia se recordar que ele usava suspensórios.
"Que razão haveria para uma pessoa magra usar este adereço?" Essa imagem, além do edifício muito antigo, fez-lhe parecer ter viajado para o passado.
4. O chá apressado e frio que ele tomou não produziu o
efeito esperado e um pouco antes do horário usual sentiu necessidade de
preparar o seu lanche noturno.
Não conseguia se decidir sobre o que comer e o pensamento vagava em torno da novidade. O incomodava o fato de que haveria rotatividade com o arrendamento do apartamento ao lado.
Isso influiria certamente na sua rotina, com infindáveis rostos novos a transitar pelo prédio, mas o desagrado que provocava aquela fisgada interior era se lembrar que ela trazia um pingente celta.
Pessoas exotéricas pareciam-lhe especialmente irritantes. Nunca conseguiu ter uma conversa razoável com pessoas crédulas. Seu ceticismo e racionalidade impedia que se visse envolvido em noções etéreas e infundadas.
5. Os dias aconteciam leves e agradáveis, enquanto ela
se adaptava ao pequeno lugar. As poucas
coisas que trouxera couberam nas gavetas disponíveis e ainda trazia das
andanças pela cidade um ou outro apetrecho para ter alguma cor.
Dos prazeres recém conquistados ouvir o som das gaivotas ao longe era dos preferidos. O encanto pela ave era antigo, mas da nostalgia que se remexia dentro dela sempre que as ouvia nunca soube a razão.
Da grande janela da sala, alcançava a minúscula varanda, de onde podia admirar a vida na tranquila ruela, mas era da estreita janela da cozinha a sua visão predileta. No árido átrio interno do antigo edifício via-se sobre o muro antiquíssimo uma frondosa buganvila roxa.
A cor das flores por trás da moldura da janela trazia encanto à cozinha e aumentava o seu prazer de estar ali ao cozinhar. O som do antigo rádio do vizinho também a distraía nestas ocasiões. Do baixo volume que se ouvia, percebia-se a boa música sintonizada de frequências transmitidas de lugares distantes.
6. A ele parecia que quanto mais as folhas caíam menos
energia lhe sobrava para enfrentar o vento frio nas caminhadas matutinas. Nesta
época trazia ainda mais trabalho para casa e permanecia longos períodos no
aconchego das coisas que lhe apraziam.
A falta de contato humano compensava com a companhia do seu rádio de longo alcance e das aventuras imaginadas das estranhas línguas captadas. Nem todas compreendia, mas se a música era boa, ficava a perscrutar o que a voz ininteligível estaria a revelar.
Ao recolher o jornal que lhe era depositado na caixa de correspondências percebeu o colorido tapete na porta ao lado. Mais um tom no que parecia uma crescente palheta de cores desde que chegara a nova moradora.
O temor inicial de ser invadido foi se esvaziando ao longo das semanas. O fato dela varrer as escadas do prédio causara-lhe mais agrado do que estranheza e as únicas impressões que chegavam do lado de lá eram aromas agradáveis pela janela da cozinha.
7. Certa tarde ela estava sentada na pequena praça do Miradouro
quando o prazer do Sol no rosto fez com que fechasse os olhos. O calor
invadindo o corpo trouxe um relaxamento aos músculos tensos da brisa fria.
Refletia sobre como o tempo e os dissabores haviam agido nos seus
modos. A precipitação e o discurso
pronto da juventude foram substituídos pela plácida calma da espera. O
pensamento - e as palavras que lhe darão forma - precisa de tempo para
sedimentar. O discurso passou a ser buscado como um aperitivo e não mais como
gole sôfrego.
O ruído de passos nas folhas secas despertou-a a tempo de ver o chapéu sendo arrancado da cabeça de um homem pela rajada de vento. Num gesto automático apanhou o adereço e entregou ao proprietário, percebendo se tratar do seu vizinho. Por desnecessário falar, apenas sorriu. Um agradecimento veio num meneio de cabeça, num homem de feições mais serenas das do rosto que tinha na memória.
8. Ele a viu assim que pisou na praça e surpreendeu-se que ela se deleitasse de forma tão ostensiva com os raios de sol no seu rosto. Ele próprio já tinha gozado desse prazer, mas ao pé da janela do quarto na sua própria casa.
O incidente com o chapéu colocou-os frente à frente, mas o temor de ser
enredado numa conversa desnecessária e sem sentido esvaiu-se no seu silente
sorriso.
Ao continuar seu caminho sentiu que sua resistência à colorida companhia dela esmorecia e a tênue decepção de ela não ter lhe dirigido palavra só era atenuada pela certeza de tê-la ao lado quando retornasse para casa.
9. Ela despertou naquele dia com um sentimento de
inquietação. Aproximava-se o fim da sua estada e não percebia ter alcançado seu
intento.
Com a ida dos filhos para o Mundo, deixou falar o desejo de partir. A maternidade nunca malogrou suas viagens, mas desde algum tempo desejava passar algum tempo alhures.
A escolha se deu pelas lembranças, nem todas boas, mas que não conseguiram apagar o seu apreço pelo lugar. Esperava que a vivência alterasse qualquer coisa em seu espírito, mas só se sentia cada vez mais à vontade e sua aventura não lhe parecia mais do que umas boas férias.
Talvez devesse compartilhar mais do que música e receitas com o vizinho. Uma outra perspectiva pode mostrar outras formas de experimentar a própria vida.
10. Ele guardou o bilhete novamente dentro do livro de
cabeceira. Desde que o encontrara
pregado em sua porta desenvolveu o hábito de apreciar-lhe as letras, mais do
que a mensagem.
O pequeno papel inaugurou o convívio com a colorida mulher da casa ao lado, mas ainda esperava encontrar naquela pequena porção de tinta os mistérios que ainda não desvendara sobre a improvável relação que vinham desenvolvendo.
Via pelas frestas da sua varanda que ela já conhecia toda a gente e gastava horas nos falatórios da rua, mas dentro da sua casa chegava com todos os olhares e parcas palavras.
Mais do que as delícias que ela trazia em troca das notas musicais com que lhe pagava, ele, eremita empedernido, há muito ansiava pelas palavras que ela ainda não lhe dava.
11. De novo era dia da visita. O que a ela pareceu um rompante no dia em que
ofereceu ao vizinho um pouco da sua cozinha, agora fazia sentido já que
percebia em ambos o conforto de uma comunicação razoável nas suas respectivas
medidas.
De sua parte respeitava o distanciamento que parecia vital a ele, além da concessão das ocasiões previamente marcadas. Resguardava para sua própria espontaneidade a escolha da louça e do que cozinharia para oferecer. Garimpava pela cidade pratos e travessas, novas ou usadas, todas no intuito de combinar com o que tinha em mente para servir. Já tinha a esta altura mais uma bagagem para levar consigo quando voltasse para casa.
Cada uma das peças pareceu-lhe um bom investimento na medida em que, além de integrar um pequeno tesouro multicolorido, percebeu nele um reconhecimento implícito pelo investimento, revelado na escolha cada vez mais cuidadosa da música.
As canções que antes eram pré-definidas passaram a ser escolhidas apenas após a revelação do mimo trazido. Ela via neste movimento uma sutil concessão dele para sua própria inspiração e espontaneidade.
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