(Re)Conhecimento

 03/05/2020


(Re)Conhecimento

 

Se eu pudesse me apresentar novamente, diria que talvez seja um prazer conhecer você. Afora as lembranças guardadas - algumas verdadeiras, outras criadas -, não restam pontas às quais possamos alcançar e  não sobraram vidraças que nos sirvam de espelho um no outro. As águas passadas erodiram as feições reconhecíveis do espírito e, no entanto, remanesce um brilho de cristal, reflexo do sol cegando os olhos que atraem e impedem o simples giro do corpo.

 

Se eu pudesse, diria que talvez devêssemos nos apresentar novamente. O que ficou é muito menor do que o que foi acrescentado à receita do que nos fez hoje. Tantos luares alteraram a cor e tanta brisa remodelou a massa da nossa essência e(in)voluída. O caleidoscópio da vivência própria confunde tanto a visão quanto a sensação do outro.

 

Se eu pudesse, gostaria de conhecer você novamente, sem arrastar percepções passadas e conclusões esperadas. Os pêlos do seu peito em torno dos dedos da minha mão me contariam dos sons guardados e dos ecos dos perdidos. O meu ouvido colado às suas costas provaria o sabor dos fardos escolhidos e sentiria a tensão dos músculos das suas asas.

 

Se você pudesse me conhecer novamente, veria que o aroma dos meus cabelos conta das tempestades que cruzei sozinha e que o sal dos verões distantes se acumulou no vão da minha nuca. Poderia sentir o caminho por onde o suor dos meus ímpetos escorreu desmesuradamente e o caminho por onde descansaram os gozos alcançados.

 

Se eu pudesse, encostaria minhas costas nas suas, pra que nossos calcanhares sentissem o mesmo chão. Na pausa seguinte, meus dedos buscariam os seus pra que pudessem se enroscar as nossas mãos. Só depois de virarmos um tronco, poderíamos ir girando em direção ao outro, pra que, sem pretensão alguma, finalmente nossos olhos se assentassem uns nos outros.

 

Se pudéssemos, nesse momento nossas almas se veriam como são hoje. E só aí, somente aí, conheceríamos novamente um ao outro. Do brilho do nosso olhar, da cor da nossa retina nesse encontro poderia surgir o sorriso nos nossos lábios e o murmúrio do prazer em conhecer. Do contrário, brilharia a lágrima da honestidade e aceitação.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Afetos Improváveis (Know that I love you)