21/03/2022 Afetos Improváveis (Know that I love you) Ninguém sabe que uma história será grande até depois de ela ter acontecido. No seu gérmen residem apenas pequenas decisões e atitudes tomadas à revelia do fato de que no futuro elas merecerão ser contadas. Naquele verão estávamos às voltas com os preparativos do casamento de uma amiga com um estrangeiro. Tinham se conhecido há alguns meses e ela partiria com ele, depois da cerimônia, para o exterior onde ele mantinha residência. Misturados ao entusiasmo dos preparativos do enlace estavam a ansiedade da vida desconhecida que ela pretendia assumir e o apego às vidas pessoal e profissional construídas da qual ela deveria então se despedir. Da parte de minha antiga amizade eu oferecia compreensão, incentivo e apoio, qualquer que fosse a natureza da necessidade verificada. Foi assim que ela me pediu para fazer companhia para o tio do noivo, que viria para o casamento e não falava português. Assim foi que naquela semana ...
... - Se nada sabe do que está por vir, tem medo? - Ter medo seria indigno com as possibilidades de venturas. Então em que estado me apanhariam? Paralisado e cego, sem condições de reconhecê-las. (...) - Pois. Se então já não temos perdido muitas venturas? - Talvez. Não saberíamos dizer, não é? Devemos aprontar o espírito - arejá-lo e vesti-lo de coragem. Se não houver coragem à mão, ao menos dotá-lo de boa disposição.
Esse é o Black. Ele já é um senhor, tem catarata e está enxergando pouco. Eu não curto contato próximo com cachorros, mas temos nos aproximado nas minhas últimas estadas aqui. Começou certa feita, quando tivermos que dormir, eu e os meninos, sozinhos num quarto externo e ele nos protegeu a noite toda. Dormiu em frente a nossa porta e descobrimos um gambá morto por ele nas imediações na manhã seguinte. Sinto ternura em seu olhar e uma espécie de resiliência em me seguir pela chácara, como se eu integrasse o grupo dos que lhe dão carinho. Perguntei-me porque me acomodo melhor aos cães antigos, que já perderam a estridência da juventude. Talvez porque ambos já aceitamos a maneira das coisas, o ritmo da vida e a inevitabilidade do afeto.
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